quinta-feira, 8 de julho de 2010

A oitava postagem


Ladrão de sonhos


Meu olhar capta três paredes mofadas e muitos objetos aparentemente inúteis, minha mente vasculha meus pensamentos em busca de um assunto trivial que preencha meu tempo ao longo da espera que vivencio. Pode-se dizer que é um horário considerável para uma família – tecnicamente falando – permanecer acordada e eu me mantenho no aguarda da vitória do cansaço deles. Meu livro me consome conforme eu o devoro com a lentidão de quem aprendeu a decifrá-lo recentemente e penso a respeito da minha escrita, não necessariamente comparando-a com a do escritor. Não mesmo.


De repente, o silêncio se instala ao longo dos cômodos como um mistério, mas eu estou certo de que ainda resta alguém à espreita de um mínimo movimento. Então, me nego a ceder à tentação de averiguar. Sempre me foi dito que a paciência é uma virtude, nunca neguei e também nem sempre quis aderi-la. Sou portador de uma temível ansiedade de viver, que em tantos impulsos ou limitações me impediu de atender a todos meus anseios.


Não me recordo de ouvir nada a respeito, entretanto, sempre acreditei na necessidade de viver para aprimorar a escrita. Talvez seja essa a razão que me levou a manter o drama em minha vida constantemente. Até me questiono se isso faz da minha escrita algo atrativo, e são tantas as questões que me abstenho com temor de encontrar uma resposta para cada uma delas. Enfim o silêncio penetra em meu pensar e ainda que ciente do erro acabo por ceder e me calo.
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quarta-feira, 7 de julho de 2010

A sétima postagem

Idéia paradisíaca de um lar

Uma cidade qualquer, próxima e quase considerada interiorana, com suas ainda virgens áreas verdes e uma população em minoria se comparada com as outras vizinhas. O ar é puro e o clima faz jus ao seu país tropical. Aparentemente, um ótimo lugar para se construir um lar, não somente em razão a sua descrição atrativa, mas também sua paz anônima. 


Forma-se diante dos olhos um paraíso para uma nova família em um terreno duplo não muito próximo a centro comercial e quase distante demais da metrópole violenta que originou este vilarejo desenvolvido. Uma casa se ergue em seus tons de azul e salmão, não as cores mais atrativas, com seus poucos cômodos azulejados cercados pelas suas paredes azuis esbranquiçadas. 




Um quintal expandido pelo desmoronamento da fronteira entre o lar e o vizinho. Animais diversos vivem em sua ignorância involuntária, alimentando um amor distinto pelos moradores da grande casa.Uma vizinhança carregada de ambições e ignorância cerca as ruas paralelas, a mais bela demonstração de aceitação ou conformismo. 




O plano perfeito em um cenário quase adequado para a criação de um lar. Em vão. Esta mesma casa, que esfria constantemente em razão de suas paredes grossas, foge do plano inicial e omite seus segredos transformados gentilmente em tabus de uma geração que nasceu com a promessa de uma revolução.


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terça-feira, 6 de julho de 2010

A sexta postagem

Me foge entre os dedos meu tempo...


Silencia-se tudo do meu lado oposto da janela, a vida parece adormecida à luz do luar em um extenso cobertor de estrelas. Mas, em mim, eu sinto o pulsar ansioso do meu coração. Tento ignorá-lo, me esforço ao máximo, entretanto no fundo da minha consciência sei que ele exige uma decisão. Uma escolha cabível somente a mim, porém, que evito cogitar a possibilidade de aceitar tamanha responsabilidade. Observo ao meu redor em busca de qualquer coisa que possa  transportar tais pensamentos para longe. Nada parece infiltrar em minha mente a ponto de modificar este cenário.



Um ruído corta o silêncio repentinamente e me assusta, não como um susto aterrorizador, mas como quem desperta subitamente ao ser tocado. Busco entre a pouca luz que me é oferecida a origem do barulho. Por um momento, sou arrebatado por uma esperança de fugir de tudo o que me inquieta. Dura pouco e logo a ansiedade volta a correr pelas minhas veias em direção ao meu coração.



Esmurro a vidraça, não com a intenção de quebrá-la, mas uma demonstração do desejo de desvencilhar-me desta raiva que me consome em razão de tamanha indecisão. Não exata ausência de decisão, todavia, receio de enfrentar quaisquer consequências. Anseio por uma resolução e temo tomar uma decisão. Enquanto tento enganar a mim e ganhar tempo o sol insisti em apontar ao longo do vasto horizonte que preenche a planíce  já gasta e mórbida.




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segunda-feira, 5 de julho de 2010

A quinta postagem

Sem transparência


Nebulosa. Não há outra definição para minha mente em virtude da realidade na qual atuo meu novo personagem. Minha mão parece não mais suportar o peso de uma caneta, meus dedos contraem-se e rapidamente tornam-se avermelhados como o fruto do pecado. Tanta neblina me tenta a desistir e me entregar aos braços de um sono sem sonho. Falso descanso que me acalenta a alma desmerecidamente. Turbilhões de pensamentos voam ao meu redor constituindo um caos que não me pertence, mas me almeja com a mentira de um título: "Solução".


A paz que me possui é graciosa em sua natureza, me remete a tempos em que brincar era apenas uma brincadeira e entre uma cambalhota e outra acabava a rolar-me por um gramado qualquer, regado de sol úmido. Lembrança essa tão doce quanto as contáveis nuvens transparentes, nostálgica por si só, entretanto, portadora da escuridão de um segredo. Um crime contra uma infância, nunca uma mágoa.


Toda guerra possui seus dois opostos, cobertos de razão ou falsas  verdades. Cada um deles a apresentar suas balanças e esperanças. Sempre uma escolha entre duas, resultando em uma mágoa entre outras duas. Justo é viver e não a vida. E, ao término do próximo ciclo do ponteiro que corre, três eventos se ocasionam: uma palavra é refletida, uma direção é seguida e uma nova mágoa a ser mantida.

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domingo, 4 de julho de 2010

A quarta postagem

Minhas Deusas, minhas palavras


A simples espera de ver algo acontecer seguida da frustração de nada ocorrer. Viver ou existir. Acreditar ou apenas querer. Queixar-se, mas nunca admitir. Perguntar, omitir. Observar e descrer nos próprios olhos. Pensar e sentir ou sentir sem pensar. Entender e renegar. Lutar ou morrer, quem sabe até lutar para morrer. Imaginar, mas não enxergar. Tocar e fugir. Mentir a enganar. Partir, permanecer, modificar, correr, esconder. Chorar para sorrir.



Muitos verbos em conjunto de substantivos dispõem-se a mostrar ao mundo como é o nosso particular viver, estar embaixo da própria pele. Entretanto, não é expor a única utilidade para eles. É preciso mais que enxergar ou crer, que na essência desse conjunto reside a chave para um desencadeamento de eventos. Uma reação em cadeia há muito disposta individualmente para que seja alcançada a correta utilização dos meios dispostos. 



Minha religião é as palavras. Essas mesmas que voam ao sabor do vento originadas dos meus lábios ou as que fundem-se e emergem do contato entre a tinta e a celulose. Pois, somente a elas, partilho minhas inúmeras verdades que até a meu eu consciente foi destinado a ignorância. Vejo toda minha fé depositada em simples pedaços de papel encarregados de portar minha alma. Descrevendo e desvendando cada partícula do meu ser. E só crendo sou guiado para o caminho a mim destinado.


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sábado, 3 de julho de 2010

A terceira postagem - Especial de aniversário

2.0


Um maço de cigarro é composto por vinte unidades do produto, muitas substâncias maléficas a saúde e escolhas de vida ou morte separadas individualmente. Vinte vezes, aproximadamente, entre vinte e quatro e quarenta e oito horas, eu opto pela morte. Consciente das inúmeras conseqüências que possam acarretar o simples movimento de levar à boca um pequeno frasco cilíndrico do veneno, utilizar de um instrumento qualquer para acendê-lo e tragar. Sentindo o doce, porém amargo, gosto da menta envolto do tabaco. Sem qualquer traço de compaixão ou remorso para comigo.



Um pulmão leva cerca de vinte anos para se regenerar completamente de seqüelas adquiridas por motivos variados, atualizados constantemente de acordo com a modernidade. Um pulmão é interligado ao outro e separados pelo coração, cada um deles carregando o peso de uma década e sobrecarregando a muralha que os separa. Há - não exatos - quatro anos, um quinto de todo meu tempo, eu escolho por maltratá-los com vinte decisões mal tomadas.



Duas décadas são o suficiente para mudar completamente o curso de uma vida, da História, da existência humana... Dois passos em direção ao comum fim... Duas pessoas a notarem quão rápido o tempo passou... Dois conselhos que pulsam à espera deste mancebo que escreve: Dez anos para o preparo físico e início de sua história dependentemente, nunca os esqueça; Outros dez para começar a viver e aprender a lidar com a vida, independentemente... Não se prenda a eles.


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sexta-feira, 2 de julho de 2010

A segunda postagem

De que me vales tanto?


De toda mágica que o mundo possa me oferecer nenhuma delas seria exatamente o que eu desejo em prol do meu latente coração. E que fosse a mim concebida a magia de asas possuir ou respirar abaixo de toda água do oceano, não me bastaria. Ainda meus erros existiriam e a vulnerabilidade ao me assustar comigo mesmo manteria-se intacta não importando quão fundo eu mergulhasse ou alto eu fosse capaz de voar. Sequer esconder-me da minhas próprias verdades seria possível, temeria até mesmo a possibilidade de confrontá-las - E como temo! Pois a mim, como errante humano que sou, me é destinado vagar a cumprir minha penalidade pelo inocente desejo de existir. Desejo o qual me foge a memória tê-lo criado ou sentido, entretanto, que em mim residi e bombeia o sangue entre as veias que unem-se em meu coração. Porém, se a todos é concebido o milagre do recomeço, sabei-vós que descrendo desse dispenso-o como quem nega a própria morte, pois, não me vejo digno de repetir os mesmos penares que até aqui trouxeram-me. Resta em vão, uma última pergunta que silencia tudo o que vejo e toco: Afinal, quando deixei de ser a mim para me tornar o que sou?


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quinta-feira, 1 de julho de 2010

A primeira postagem - Recomeço (2° semestre)

As vinte e quatro sombras


As vinte e quatro horas que completam um dia são - para mim - como guardiãs individuais de cada sessenta minutos. Observando cada leve pensar meu, regendo o mínimo movimento. Implacáveis como a vida ou a morte, me jogam como quem joga a uma peça partida de xadrez, irredutível e calculadamente. Dispensando toda e qualquer possibilidade de empate, crescendo o número de impasses e a ansiedade regada da incerteza do que é certo. Sempre postas a apresentar um vencedor dominando o regente perdedor sendo o prêmio nada além de novas linhas em um livro em branco descrito e escrito com lágrimas e sangue.

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São essas guardiãs presas em compactos mecanismos repletos de ponteiros que regem minha existência sem qualquer consentimento da minha parte. Presas à eternidade e condenadas a me sancionar como mais um de seus tantos  escravos, os quais em vão tentam libertá-las ou dominá-las. Guardiãs do meu sono tanto quanto do meu penar. Sem misericórdia hão de me guiar até o momento que nem a vós - e o que dirá a mim - caberá rogar pela continuidade do meu andar. Até lá, que seja o que a mim couber decidir e a vós apresentar.